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Indústrias Extractivas

Extracção de hulha, lenhite, petróleo bruto, gás natural e outros. Extracção e preparação de minérios metálicos.

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Sal-gema: o que é, para que serve e onde se extrai em Portugal

Sal-gema: o que é, para que serve e onde se extrai em Portugal

MINÉRIOS & MINERAIS | 10 de Julho, 2024 | Revisto a 6 de Agosto, 2026

LEITURA | 9 MIN

O sal-gema é sal de cozinha em estado natural: cloreto de sódio (NaCl) que cristalizou no subsolo há milhões de anos, quando mares interiores secaram e deixaram camadas de sal soterradas. Em mineralogia chama-se halita. Extrai-se em mina ou por dissolução, e vai desde o degelo de estradas até à mesa, passando pela indústria química. Em Portugal há duas explorações que se podem visitar: a mina de Loulé, a 230 metros de profundidade, e as salinas de Rio Maior, onde se faz sal sem mar.

O que é o sal-gema

Sal-gema e halita são o mesmo: o mineral cuja composição é cloreto de sódio. Cristaliza no sistema cúbico — os cristais bem formados são cubos perfeitos, transparentes ou com tons de cinza, rosa e laranja consoante as impurezas. É um mineral mole, entre 2 e 2,5 na escala de Mohs, o que significa que se risca com uma unha com alguma força, e tem densidade próxima de 2,17 g/cm³.

Pertence à família dos evaporitos, as rochas que se formam por precipitação química quando a água salgada evapora. Não é uma rocha que resulte de arrefecimento de magma nem de compressão de sedimentos: resulta de água que desapareceu e deixou o que trazia dissolvido.

Na jazida raramente aparece puro. O sal-gema explorado em Loulé é cloreto de sódio acompanhado de argila, gesso e cloretos de potássio e de magnésio — e é essa composição que determina se um depósito serve para uso alimentar, industrial ou apenas para degelo.

Como se forma uma jazida de sal-gema

A sequência é sempre a mesma. Uma bacia marinha fica isolada do oceano, num clima quente e seco. A água evapora mais depressa do que é reposta e a salinidade sobe até os minerais começarem a precipitar, por ordem de solubilidade: primeiro os carbonatos, depois o gesso, depois o sal-gema, e por fim os sais de potássio e magnésio. Repetido ao longo de milhares de anos, o processo empilha camadas de sal com dezenas ou centenas de metros de espessura. Sedimentos posteriores soterram tudo.

Depois há um segundo capítulo, que explica por que razão o sal aparece à superfície em sítios improváveis. O sal é menos denso do que as rochas que o cobrem e comporta-se plasticamente sob pressão: sobe, atravessando as camadas superiores em estruturas chamadas diapiros. É num vale diapírico — também dito vale tifónico — que assentam as salinas de Rio Maior. O sal que lá se colhe não veio do mar ali ao lado; veio de baixo.

Para que serve o sal-gema

A aplicação que consome mais volume no mundo não é alimentar, é industrial. A electrólise de salmoura produz cloro e hidróxido de sódio, dois dos reagentes com que se fabrica desde PVC a papel, passando por desinfectantes. Depois vêm:

  • Degelo de estradas. O sal baixa o ponto de congelação da água. É por isso que se espalha sal nas estradas antes e depois das geadas, e é um dos usos declarados do sal de Loulé.
  • Tratamento e descalcificação de água. Os descalcificadores domésticos e as piscinas de electrólise salina funcionam com salmoura.
  • Alimentação animal. Blocos de sal para gado, que os animais lambem para repor sódio e cloro.
  • Controlo fitossanitário e outras aplicações agrícolas.
  • Uso alimentar e culinário, quando o sal tem pureza suficiente ou é refinado para o efeito.
  • Decoração — lâmpadas, blocos e revestimentos de sal.

O sal-gema pode ser consumido?

Sim, desde que seja sal-gema de qualidade alimentar. Quimicamente é o mesmo cloreto de sódio do sal que já tem em casa: a diferença está na origem e no grau de pureza, não na natureza da substância. Boa parte do sal de cozinha vendido no mundo é precisamente sal-gema moído e refinado.

O que não se deve fazer é consumir sal-gema industrial. O sal destinado a degelo ou a descalcificadores não passa pelos controlos de contaminantes exigidos para género alimentício e pode conter minerais acessórios e impurezas em quantidades irrelevantes para uma estrada e indesejáveis num prato. A embalagem indica sempre o fim a que se destina.

Vale uma nota sobre iodo. O sal-gema não é naturalmente iodado — o sal iodado é sal ao qual se adicionou iodo, por razões de saúde pública. Quem substitui integralmente o sal de mesa por sal-gema, sal marinho artesanal ou flor de sal deixa de ter essa fonte de iodo na alimentação. Se isso é relevante no seu caso, é uma pergunta para o médico ou nutricionista, não para um artigo.

Sal-gema, sal marinho e sal de mesa: onde estão as diferenças

Sal-gema Sal marinho Sal de mesa refinado
Origem jazida subterrânea, mar que secou há milhões de anos evaporação de água do mar actual, em salinas qualquer das duas, depois refinado
Obtenção mina ou dissolução com água injectada evaporação solar refinação industrial
Composição NaCl com argila, gesso e outros cloretos NaCl com minerais da água do mar NaCl com antiaglomerante e, se for o caso, iodo
Sabor varia com as impurezas varia com a salina uniforme

Do ponto de vista nutricional, a diferença entre eles é muito menor do que a comunicação de alguns produtos sugere: em todos, mais de 97% do que se ingere é cloreto de sódio. A recomendação de reduzir o consumo de sal aplica-se a qualquer deles.

Onde há sal-gema em Portugal

Os depósitos de sal-gema portugueses estão associados à Bacia Lusitânica e aos seus diapiros, numa faixa que se estende aproximadamente entre Leiria e Torres Vedras, e ao Algarve. Dois locais destacam-se por estarem explorados e abertos a visitas.

A mina de Loulé, a 230 metros de profundidade

Na Campina de Cima, em Loulé, explora-se sal-gema de uma formação com cerca de 230 milhões de anos. Os trabalhos de execução dos poços de acesso começaram em janeiro de 1964 e a exploração propriamente dita arrancou em 1966, depois de estabelecida a ligação entre os poços. A galeria principal está à cota -30 metros e a exploração desce até aos 230 metros.

O ano de maior produção foi 1989, com mais de 124 mil toneladas de minério de sal-gema. O sal daqui segue para alimentação animal, segurança rodoviária, controlo fitossanitário, decoração, uso culinário e salmoura para piscinas e descalcificadores.

A mina, hoje operada pela TechSalt, abriu ao turismo industrial: são cerca de 1,3 km de galerias percorridas em visita guiada, no maior espaço subterrâneo visitável do país. Lá em baixo há uma exposição dedicada a Santa Bárbara, padroeira dos mineiros.

As salinas de Rio Maior, sal sem mar

A três quilómetros de Rio Maior, num vale diapírico da Serra dos Candeeiros, há salinas a 30 quilómetros da costa. A água que enche os talhos não é do mar: é uma nascente que atravessa uma jazida de sal-gema subterrânea e emerge sete vezes mais salgada do que a água do oceano. É essa concentração que torna possível fazer sal tão longe do litoral.

O documento mais antigo que refere a exploração data de 1177, o que dá oito séculos de história documentada, e presume-se aproveitamento anterior. O ciclo é curto por causa da salinidade da água: a evaporação nos talhos leva três a seis dias, e a secagem na eira cerca de 60 horas. Cada talho produz sal semanalmente durante a época.

Como é extraído

Há dois métodos, e a escolha depende da profundidade, da pureza e do destino do sal.

Exploração em mina. Abrem-se poços e galerias até à camada de sal e arranca-se o minério por perfuração e rebentamento ou com máquinas de corte, tipicamente pelo método de câmaras e pilares — deixam-se pilares de sal a sustentar o tecto. O sal sai em bruto e é britado e classificado à superfície. É o que se faz em Loulé.

Dissolução, ou mineração por solução. Injecta-se água doce na jazida através de um furo, a água dissolve o sal e a salmoura é bombeada de volta à superfície, onde se evapora em cristalizadores. Dispensa galerias e é o método preferido quando o destino é a indústria química, que já precisa do sal em salmoura. Em Rio Maior a natureza faz metade do trabalho: a nascente já traz a salmoura pronta.

Riscos e impactos

A extracção de sal-gema tem dois problemas que lhe são próprios. O primeiro é a subsidência: retirar sal deixa vazios, e vazios em rocha solúvel podem colapsar, com abatimentos à superfície. É agravado quando há circulação de água doce na jazida, porque a água continua a dissolver o que a exploração deixou. O segundo é a salinização de solos e de aquíferos por salmoura mal contida, seja de operações de dissolução, seja de escombreiras.

No degelo há ainda o efeito acumulado do sal espalhado nas estradas, que escorre para solos e linhas de água e afecta vegetação e fauna aquática — razão pela qual vários países estudam alternativas e doses mais baixas.

Perguntas frequentes

Sal-gema e halita são a mesma coisa?

Sim. Halita é o nome mineralógico e sal-gema o nome de uso corrente e comercial. Ambos designam o cloreto de sódio natural.

O sal-gema é mais saudável do que o sal comum?

Não há base para o afirmar. Em qualquer sal, a esmagadora maioria do que se ingere é cloreto de sódio, e é o sódio que está em causa nas recomendações de saúde. Os minerais acessórios existem em quantidades demasiado pequenas para terem efeito nutricional relevante.

Quantos anos tem o sal-gema português?

A formação explorada em Loulé tem cerca de 230 milhões de anos, o que a situa no Triásico. É sal de um mar que existiu antes de o Atlântico se abrir.

Pode visitar-se uma mina de sal-gema em Portugal?

Sim. A mina de Loulé faz visitas guiadas a 230 metros de profundidade, ao longo de cerca de 1,3 km de galerias. As salinas de Rio Maior, à superfície, têm ecomuseu e integram o Roteiro das Minas e Pontos de Interesse Mineiro e Geológico.

Porque é que o sal aparece longe do mar?

Porque é menos denso do que as rochas que o cobrem e sobe através delas, em estruturas chamadas diapiros. Em Rio Maior é isso que traz o sal ao alcance de uma nascente, a 30 km da costa.

Catarina Almeida

Catarina Almeida

Bio

Doutorada em Geologia pela Universidade de Coimbra

Experiência: Catarina possui mais de 15 anos de experiência na exploração e análise de recursos minerais. Trabalhou em grandes empresas de mineração e atualmente é consultora independente, ajudando na gestão sustentável de recursos naturais.

Outras informações: Publicou vários artigos sobre minerais raros e é frequentemente convidada para conferências internacionais.

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