O sal-gema é sal de cozinha em estado natural: cloreto de sódio (NaCl) que cristalizou no subsolo há milhões de anos, quando mares interiores secaram e deixaram camadas de sal soterradas. Em mineralogia chama-se halita. Extrai-se em mina ou por dissolução, e vai desde o degelo de estradas até à mesa, passando pela indústria química. Em Portugal há duas explorações que se podem visitar: a mina de Loulé, a 230 metros de profundidade, e as salinas de Rio Maior, onde se faz sal sem mar.
O que é o sal-gema
Sal-gema e halita são o mesmo: o mineral cuja composição é cloreto de sódio. Cristaliza no sistema cúbico — os cristais bem formados são cubos perfeitos, transparentes ou com tons de cinza, rosa e laranja consoante as impurezas. É um mineral mole, entre 2 e 2,5 na escala de Mohs, o que significa que se risca com uma unha com alguma força, e tem densidade próxima de 2,17 g/cm³.
Pertence à família dos evaporitos, as rochas que se formam por precipitação química quando a água salgada evapora. Não é uma rocha que resulte de arrefecimento de magma nem de compressão de sedimentos: resulta de água que desapareceu e deixou o que trazia dissolvido.
Na jazida raramente aparece puro. O sal-gema explorado em Loulé é cloreto de sódio acompanhado de argila, gesso e cloretos de potássio e de magnésio — e é essa composição que determina se um depósito serve para uso alimentar, industrial ou apenas para degelo.
Como se forma uma jazida de sal-gema
A sequência é sempre a mesma. Uma bacia marinha fica isolada do oceano, num clima quente e seco. A água evapora mais depressa do que é reposta e a salinidade sobe até os minerais começarem a precipitar, por ordem de solubilidade: primeiro os carbonatos, depois o gesso, depois o sal-gema, e por fim os sais de potássio e magnésio. Repetido ao longo de milhares de anos, o processo empilha camadas de sal com dezenas ou centenas de metros de espessura. Sedimentos posteriores soterram tudo.
Depois há um segundo capítulo, que explica por que razão o sal aparece à superfície em sítios improváveis. O sal é menos denso do que as rochas que o cobrem e comporta-se plasticamente sob pressão: sobe, atravessando as camadas superiores em estruturas chamadas diapiros. É num vale diapírico — também dito vale tifónico — que assentam as salinas de Rio Maior. O sal que lá se colhe não veio do mar ali ao lado; veio de baixo.
Para que serve o sal-gema
A aplicação que consome mais volume no mundo não é alimentar, é industrial. A electrólise de salmoura produz cloro e hidróxido de sódio, dois dos reagentes com que se fabrica desde PVC a papel, passando por desinfectantes. Depois vêm:
- Degelo de estradas. O sal baixa o ponto de congelação da água. É por isso que se espalha sal nas estradas antes e depois das geadas, e é um dos usos declarados do sal de Loulé.
- Tratamento e descalcificação de água. Os descalcificadores domésticos e as piscinas de electrólise salina funcionam com salmoura.
- Alimentação animal. Blocos de sal para gado, que os animais lambem para repor sódio e cloro.
- Controlo fitossanitário e outras aplicações agrícolas.
- Uso alimentar e culinário, quando o sal tem pureza suficiente ou é refinado para o efeito.
- Decoração — lâmpadas, blocos e revestimentos de sal.
O sal-gema pode ser consumido?
Sim, desde que seja sal-gema de qualidade alimentar. Quimicamente é o mesmo cloreto de sódio do sal que já tem em casa: a diferença está na origem e no grau de pureza, não na natureza da substância. Boa parte do sal de cozinha vendido no mundo é precisamente sal-gema moído e refinado.
O que não se deve fazer é consumir sal-gema industrial. O sal destinado a degelo ou a descalcificadores não passa pelos controlos de contaminantes exigidos para género alimentício e pode conter minerais acessórios e impurezas em quantidades irrelevantes para uma estrada e indesejáveis num prato. A embalagem indica sempre o fim a que se destina.
Vale uma nota sobre iodo. O sal-gema não é naturalmente iodado — o sal iodado é sal ao qual se adicionou iodo, por razões de saúde pública. Quem substitui integralmente o sal de mesa por sal-gema, sal marinho artesanal ou flor de sal deixa de ter essa fonte de iodo na alimentação. Se isso é relevante no seu caso, é uma pergunta para o médico ou nutricionista, não para um artigo.
Sal-gema, sal marinho e sal de mesa: onde estão as diferenças
| Sal-gema | Sal marinho | Sal de mesa refinado | |
|---|---|---|---|
| Origem | jazida subterrânea, mar que secou há milhões de anos | evaporação de água do mar actual, em salinas | qualquer das duas, depois refinado |
| Obtenção | mina ou dissolução com água injectada | evaporação solar | refinação industrial |
| Composição | NaCl com argila, gesso e outros cloretos | NaCl com minerais da água do mar | NaCl com antiaglomerante e, se for o caso, iodo |
| Sabor | varia com as impurezas | varia com a salina | uniforme |
Do ponto de vista nutricional, a diferença entre eles é muito menor do que a comunicação de alguns produtos sugere: em todos, mais de 97% do que se ingere é cloreto de sódio. A recomendação de reduzir o consumo de sal aplica-se a qualquer deles.
Onde há sal-gema em Portugal
Os depósitos de sal-gema portugueses estão associados à Bacia Lusitânica e aos seus diapiros, numa faixa que se estende aproximadamente entre Leiria e Torres Vedras, e ao Algarve. Dois locais destacam-se por estarem explorados e abertos a visitas.
A mina de Loulé, a 230 metros de profundidade
Na Campina de Cima, em Loulé, explora-se sal-gema de uma formação com cerca de 230 milhões de anos. Os trabalhos de execução dos poços de acesso começaram em janeiro de 1964 e a exploração propriamente dita arrancou em 1966, depois de estabelecida a ligação entre os poços. A galeria principal está à cota -30 metros e a exploração desce até aos 230 metros.
O ano de maior produção foi 1989, com mais de 124 mil toneladas de minério de sal-gema. O sal daqui segue para alimentação animal, segurança rodoviária, controlo fitossanitário, decoração, uso culinário e salmoura para piscinas e descalcificadores.
A mina, hoje operada pela TechSalt, abriu ao turismo industrial: são cerca de 1,3 km de galerias percorridas em visita guiada, no maior espaço subterrâneo visitável do país. Lá em baixo há uma exposição dedicada a Santa Bárbara, padroeira dos mineiros.
As salinas de Rio Maior, sal sem mar
A três quilómetros de Rio Maior, num vale diapírico da Serra dos Candeeiros, há salinas a 30 quilómetros da costa. A água que enche os talhos não é do mar: é uma nascente que atravessa uma jazida de sal-gema subterrânea e emerge sete vezes mais salgada do que a água do oceano. É essa concentração que torna possível fazer sal tão longe do litoral.
O documento mais antigo que refere a exploração data de 1177, o que dá oito séculos de história documentada, e presume-se aproveitamento anterior. O ciclo é curto por causa da salinidade da água: a evaporação nos talhos leva três a seis dias, e a secagem na eira cerca de 60 horas. Cada talho produz sal semanalmente durante a época.
Como é extraído
Há dois métodos, e a escolha depende da profundidade, da pureza e do destino do sal.
Exploração em mina. Abrem-se poços e galerias até à camada de sal e arranca-se o minério por perfuração e rebentamento ou com máquinas de corte, tipicamente pelo método de câmaras e pilares — deixam-se pilares de sal a sustentar o tecto. O sal sai em bruto e é britado e classificado à superfície. É o que se faz em Loulé.
Dissolução, ou mineração por solução. Injecta-se água doce na jazida através de um furo, a água dissolve o sal e a salmoura é bombeada de volta à superfície, onde se evapora em cristalizadores. Dispensa galerias e é o método preferido quando o destino é a indústria química, que já precisa do sal em salmoura. Em Rio Maior a natureza faz metade do trabalho: a nascente já traz a salmoura pronta.
Riscos e impactos
A extracção de sal-gema tem dois problemas que lhe são próprios. O primeiro é a subsidência: retirar sal deixa vazios, e vazios em rocha solúvel podem colapsar, com abatimentos à superfície. É agravado quando há circulação de água doce na jazida, porque a água continua a dissolver o que a exploração deixou. O segundo é a salinização de solos e de aquíferos por salmoura mal contida, seja de operações de dissolução, seja de escombreiras.
No degelo há ainda o efeito acumulado do sal espalhado nas estradas, que escorre para solos e linhas de água e afecta vegetação e fauna aquática — razão pela qual vários países estudam alternativas e doses mais baixas.
Perguntas frequentes
Sal-gema e halita são a mesma coisa?
Sim. Halita é o nome mineralógico e sal-gema o nome de uso corrente e comercial. Ambos designam o cloreto de sódio natural.
O sal-gema é mais saudável do que o sal comum?
Não há base para o afirmar. Em qualquer sal, a esmagadora maioria do que se ingere é cloreto de sódio, e é o sódio que está em causa nas recomendações de saúde. Os minerais acessórios existem em quantidades demasiado pequenas para terem efeito nutricional relevante.
Quantos anos tem o sal-gema português?
A formação explorada em Loulé tem cerca de 230 milhões de anos, o que a situa no Triásico. É sal de um mar que existiu antes de o Atlântico se abrir.
Pode visitar-se uma mina de sal-gema em Portugal?
Sim. A mina de Loulé faz visitas guiadas a 230 metros de profundidade, ao longo de cerca de 1,3 km de galerias. As salinas de Rio Maior, à superfície, têm ecomuseu e integram o Roteiro das Minas e Pontos de Interesse Mineiro e Geológico.
Porque é que o sal aparece longe do mar?
Porque é menos denso do que as rochas que o cobrem e sobe através delas, em estruturas chamadas diapiros. Em Rio Maior é isso que traz o sal ao alcance de uma nascente, a 30 km da costa.
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